“Quem foi seu professor mais influente? Por quê?”
Quem foi seu professor mais influente? Por quê?
“Quem foi seu professor mais influente? Por quê?”
Quem foi seu professor mais influente? Por quê?
Epa! Epa! Epa!
Já para dentro de casa, velho teimoso!
Olha só, lá coroa, fique onde o senhor está, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, fique aí e não torne a fazer isso.
Está proibido velho andando rua acima e rua abaixo, o senhor não sabia?!
É ordem do Prefeito, do Governador e do Presidente – todo mundo junto.
Não ponha o pé na rua, um pezinho sequer, tá ligado?!
Avia ligêro Miquilina minha muié, se aprochegue cá, minha véia. Óia só cum quê tô me adeparano?!
Intonse agora a rua daqui tem dono, é?! E pelo qui iscutei né só um não, é três. Arre égua!
Isso é uma discumpusição maió qui um hômi cuma eu pódi passar na vida, minha véia!
Tu deixa de tanto tá arrismungano de tudo Supriano meu marido.
Intonse vamicê tá falano sozinho aí, cuma a rádia de seu Juquinha, prefeito da Natuba, na “hora do brasil”?!
O qu’é qui tá se sucedeno com vamicê, criatura de Deus? Num tá vêno não, qui tô catando o feijão pra cozinhá pra nois cumê quando o sóli tivé a pino?!
Êta hômi injuado dos pé de zé sereno. Minha Santa Dulce dos Pobre, cuida do juízo desse hômi, parece qui vai ficá abilolado de vez, nessa quadra de tanta miséra e tanta doença nesse mundo de meu Deus.
Assunte só vamicês: foi só chegá essa táli órdi do povo ficá dendicasa, prumode este hômi ficar abuletado.
É o tempo todo indo dum lado pro ôto; de casa pru quintal, pru curral, pru pulêro e volta e vai; é um istica e puxa do tamanho do mundo, viu! é um forrobodó da peste.
Umas hora ele arruma os arreio da carroça, ôtas horas enseba os lóro da sela, os roló, as pernêras, as brochas de encangar os boi, a corda de couro; ôtas vez canta uma mudinha do tempo do cuspe e, as vez inté se mete a varrer a casa – é siná dos tempo minha gente; é siná dos tempo!, nestes tempo qui tamo junto – uns sessenta e tantos ano entre namoro e casório – nunca essa criatura pegou numa vassoura, nem mermo pra tirá dum lugar e botá nôtro.
Miquilina, tem um fio d’uma égua aqui, escanchado inriba d’uma bicicleta, zuadenta que só o motô da luz, me passando uma carraspana do tamanho do buraco do vento, lá do Tucano.
O cába tá improibino d’eu ir alí na casa de cumpádi Rafaé, tirá um didalzin de prosa cum ele e cum a cumádi Sinhá.
Sabe, Miquilina, é prumóde qu’eu quero dizê a eles que o afiado deles, nosso fio Xiquitinho, mandou lembrança lá de Sum Palo e tamém das miséra qui tão aconteceno por lá, cuma ele me disse ônti, pelo celulau, na hora qui o sóli se pôs.
Adonde já se viu uma miséra dessa, Miquilina?!
Eu, cá c’os meu novent’anos nas costa, nascido, criado, morano, trabaiano, e havêi de morrê aqui, – qui nunca na minha vida fui siquer chamado pelo Ispetor de Quarteirão, prumódi ir numa Delegacia de Puliça – sendo barrado, na porta de minha própi casa, pur um frangote de gente qui ainda tem idade de ser meu birneto.
Valei-me Jaquim Ega – como dizia Zeca de Benbém – será qui o mundo vai acabá mermo, minha véia? Um hômi cuma eu, titela lisa, trabaiadô qui só o diabo, temente a Deus Nosso Sinhô, si dobrano a um frangote desse?!
Tem nada não. Tem nada não, pelo que tô divurgano nas feição desse minino, ele é do povo de cumpádi Zé Cornetêro. Adispôs vou lá na casa dele fazer minha queixa e cobrá dele que dê côbo aos neto dele, purquê dos meu eu dô e agaranto.
Vamicê, minha muié, tá alembrada daquela surra qui dei, com vara de cipó cabôco, no minino de nossa fia Zidora, meu neto Calanguinho, só purquê o disinfeliz – qui São José mi perdôe pela má palavra – mangô de d. Tranquilina quando ela saiu vistida, só de anágua e sem a saia pur riba, e ela veio da parte dele a nois, já qui a mãe nun tava aqui?
Apois, s’esse franguinho fosse da nossa famía, ele ia se abuletá cumigo hoje mermo, viu! Eu ainda me agaranto, no mínmo uns três minuto, cum pilunguinha de pau d’arco qui tenho guardado aí no nosso quarto de durmir.
Apois tá bunito, veja só Miquilina:
Eu, um hômi de respeito, sem devê um franisco de nada a ninguém e nem a Justiça, tê qui ficá preso dendicasa, cuma se fosse na cadeia, pur orde de quem nem conheço – e, com a graça de Deus nosso, Pai, num quero cunhecê – e, ainda pur riba, tê de iscutá lorota dum frango d’água desse, qui não sarô do fedô do mijo ainda.
É fim de mundo mermo, minha véia! É fim de mundo!!!
Supriano, Supriano, fio de D Maricota, minha sogra, tu num tá vêno as nutícia nas rádio e nas televisão não, fio duma jéga de aguadêro?!!
Apareceu, no Brasí e no istrangêro, no Mundo todo de meu Deus, uma táli duença qui os dotô botáro o apilido de vírus – e parece qui essa vêio dos inferno mermo.
Dizem inté qui tem o nome de Corona, iguá ao dessa planta qui nasceu no munturo daqui dicasa. Vixe mãe do céu, arranca logo esta disinfiliz dos diabo, Supriano, vai logo, vai logo criatura; já tô toda arrupiada só de pensar.
Vá lá qui os hômi do governo discóbri ela aqui e pódi inté dizer que nois tem curpa no cartóro também, eu hein, num é de duvidar, vamicê sabe?!
Onti meio-dia, eu uví na rádia qui o minino de Cabelinho de Zé de Gracino fala todo sábado, que essa táli de doença tem um nome istranho do cão, qui os cientista butáro nela.
É até um nome qui num é feio de todo não; pois fala em convidá num sei quem, táli e coisa – e num pode ser muita gente não, pelo qui divurgei nas oiças só pode tê convite prá 19.
Êta povo besta esses cientista, estudam cuma peste, num cômi direito, num dormi direito, é tudo cum cabelo arrupiado – inté parece qui nuca viu pente – barba pariceno dum ismolé, trancado num lugá di vrido, e paráro logo in 19 – COVID-19. Num pudiam fechá logo nos 20, qui é de rombo, cuma diz o hômi que canta os bingo da igreja?!
Pra completar, Supriano, o povo, as televisão, as rádia, os dotô, os infermêro qui dá injeição na gente, todo esses fio de Jesus, tão chamando a doença de CORONAVÍRUS – óia a corona pelo meio dinovo!.
Tu já assuntô, meu marido, s’esse povo discobre esse pé de corona no quintá daqui dicasa?!
Havia de sê um Deus nos acuda, num era?!
Era uma romaria de tanta gente aqui, uns repórte hômi cum cabelinho empastado, cheio de vasilina ou ólho de côco; umas repórte muié cum a cara intupida de pó de arroz e ruge, os cabelo dos óio pintado de toda côr,
umas saia justa, impinando a bunda, umas blusa lascada amostrando os peito até quase aparecê os bico dos coitado, umas calça cumprida, tão justa qui desenha as vergonha de baixo, todos ele esbafurido, impurrano uns aos ôto, pidino a nois pra intrá no quintá e tirar retrato da planta, pra nois falar naqueles bicho qui eles traz e qui mais paréci uma mão de pilão dum lado só, tirano retrato da gente e inté botano nossa cara na televisão – tá tudo arrivirado, de ponta-cabeça, Supriano, niguém mais tem vergonha de nada não, meu véio.
Deus do céu e Nossa Senhora da Conceição qui nos livre disso! Tenho rezado o Ofício, todos dia da sumana, e é dimadrugadinha, pidino a Ela proteção pra nois, pros nossos fios, neto e birneto; mais vamicê, cum sua priguiça dos diabo, é que num m’acompanha todo dia, reza de caju in caju, mas vale.
Bem meu cumpanhêro véio de vida – derna meu quinze ano de idade – é peuciso assuntar direitinho pro qui tá se sucedeno no mundo todo, viu?!
Vamo tomá tinênça na vida e cumprí as órdi do Guverno e dos dotô médico.
É pra todo bichin ficá dendicasa, s’afastando do povo da rua.
Só dévi saí na rua pur muita nicissidade mermo.
Se for pralgum lugar, é preciso ir cum o nariz e a boca tapado com pano ou cum prástico, amarrano cum elástico e dipindurano nas urêa, mermo qui as pessoa tenha óculos.
Os dotô diz que o nome disso qui tapa a boca e o nariz é máscara e qui, se num achá prumôdi
comprá ou se o guverno num dér a nois, a gente pode fazê in casa mermo, cum pano limpo, mais num pódi sê fininho demais como madrasto de forrá caixão de difunto; tem qui sê de augudão, anarruga ou ôto mais forte ainda.
Tem mais ainda, viu Supriano, quando chegá nos lugá, tem qui melar as mão c’um táli de árcu gel ou lavá cum água e sabão, isfregá direitin por dento dos dedo indo inté um pedaço do braço, mais ou meno um meio pármo depois das mão.
Quando chegá da rua, num entre direto in casa cum os calçado qui tava não. É preciso limpá a sola com água sanitária misturada cum água. Eles diz qui só carece misturá meio copo d’água sanitária num litro d’água, do pote ou da tornêra mermo e pronto.
A roupa qui tava usano na rua, num botá inriba da cama ou das cadêra da casa. Tem qui guardá num lugar isolado, um canto onde não é muito usado, no fundo da casa, prá adispôs sê lavada e gomada cum ferro bem quente.
Ainda tem ôtos consêio dos dotô:
Apois intonse, Supriano, meu véio, vamo ficar aqui DENDICASA isperano o Guverno dizê quano tá tudin liberado e, aí, nois vai pra tudo quanto é lugá, inté pra casa de nossa fia Guadalupe, lá no Paiaiá.
É de vê qui êsse povo rico vai vortá a ir pro istrangêro logo, logo; de navio, de avião ou de trem, se tivé.
As fêra dur lugá vão vortá a vendê as coisa – tô pensando cuma vô cumprá o fumo de corda pro meu cachimbo, qui já tá quási fartano, num sábi! – as casa comerciá de todo lugá vai vendê tudo, fiado ou a dinhêro; os artista vão pudê cantá, fazê novela, pulá de riba do circo, os paiáços não pudê contá um monte históra pra tudo mundo dá risada. E aí a vida ségui normá, normá, até o dia qui Deus quisé.
Mais tem uma coisa, pur infilicidade de tudo isso, num vai tê o São João no meio da rua este ano; num vai tê pé-de-bode, oito baixo, zabumba e os iscambáu; num vai tê arrasta-pé, nem fuguêra, nem nada, vai sê uma lezêra danada.
Os hômi do guverno já disséro qui não e pronto!
Mais eles tem razão, sabe; é prumóde qui num tem dinhêro pra festa não, a gastança cum os hospitá e cum remédio é grandona mermo, do tamanho da água do rio do amazona.
FIQUE DENDICASA – faça a sua parte, colabore com a medicina e os profissionais da área, com a governança municipal, estadual e federal – colabore consigo mesmo.
Ajude a evitar que esta pandemia se alastre por tudo quanto é lugar!
Só depende de você, leitor!
Leve esta mensagem a quantos lhe ouvem ou lhe vê.
Eu fiz a minha parte, faça a sua!
Espero estar colaborando com o enfrentamento dessa situação toda, que requer cuidados e obediência, acima de tudo!
Tonho do Paiaiá
Em isolamento social com familiares – Reserva Imbassaí, Sábado de Aleluia de 2020
A leitura engrandece a alma.
Voltaire
Hoje, no início do dia, estava assistindo a um programa de jornal televisivo quando meus ouvidos gritaram com espanto.
Vejam o porquê do espanto.
A jornalista que levava as notícias ao ar, ao indicar acontecimento em uma determinada artéria urbana da Cidade do Salvador, dissera – e repetira mais de uma vez – que o ocorrido teria sido na Rua TeodÚlo (fonia utilizada) de Albuquerque.
Ora, para que todos saibam, TeÓdulo de Albuquerque fora um médico baiano, pilão-arcadense, que militara na política, sendo constituinte, na Câmara dos Deputados, nos idos da década de 1940 do século passado.
Pasmado com a fonia empregada pela jornalista, fiz publicar, em meu perfil, na rede social Facebook, minha indignação – vou omitir o nome da emissora, obviamente.
Assim publiquei:
A publicação merecera comentários diversos, de amigos, ou não, na rede social citada, e uma grande quantidade de curtidas.
Não escapei à acurada observação do amigo Tom Torres, coincidentemente irmão do festejado e respeitado escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, Antônio Torres e primo de outro escritor, de amizade mais próxima de mim, Marcelo Torres.
Tive sabendo que também o meu amigo Tom Torres é escritor, com trabalhos e livros publicados.
O Tom Torres, do alto da sua fina e sagaz escrita, de tom alegre e, porque não dizer, apimentado, tomou da sua pena e publicara, também em seu perfil na rede social Facebook, uma crônica-prosa digna de louvor. Crônica frugal; uma pérola; uma narrativa exemplar, com o título: “No Paiaiá é assim: escreveu, não leu, é analfabeto” 
Ao ler a publicação do Tom, me derramei em risos, além de me sentir regozijado, não só pela citação do meu Paiaiá como deste escrevinhador sibite, metido a escritor – risos oportunos, mais uma vez.
Tomei da minha pena virtual – nesses tempos já não mais se fala em lápis, caneta, pena a nanquim, máquina de datilografia e outros mais; ou é computador, ou é laptop, ou é iPad, ou é o aparelho celular mesmo – e fiz uma prosa, em tom, caipira para agradecer a publicação do Tom Torres.
Vamos a ela:
Tom Torres vamicê num iziste, táuvino?!!!
Beleza de crônica a sua. Mangando d’eu, só purquê eu pedi, e foi pur amô de Deus viu, pra avisar as mininas da televisão qui elas tavam prununciano o nome de seu Teódo como Teoúdo – nem sei mermo se ele era tinhundo assim, meu irimão, sei mesmo é quase meus uvido papoca, zunino cuma gota, de tanto a mocinha prununciá errado o nome dele.
Aí vamicé tacou o dedo pra riba e iscrivinhou uns negóço, bunito cuma pêga, chega todo mundo s’admirou, deu risada, bateu palma, etc e táli. Inté seu irimão Reimundo achou q’eu ia me zangar cum vamicê. Foi mermo!
Eu zango nada, seu Reimundo!
Intonse eu sou lá doido de me azangar com gente letrada?!!!, que o senhor São José do Paiaiá qui me livre e me proteja!
No Paiaiá num tem disso não, Tom!
Lá “todo mundo fala, todo mundo ouve”, até mesmo quem é surdo e quem é mudo, j’ouviu?!!!! – como diz na rádia, aquele hômi qui foi prefeito da Baia duas vez; um que o povo chama por duas letra, o mê e o ká.
Me alembro que, isturdia, têvi pur lá um povo do Junco (da Maiáda da Péda, cuma dizia seu Ramiro Vieira, prefeito da Natuba entre 1951-1954), uns hômi istudado, iscritô de livro, jorná, cartía e o diabo a quatro, deitaram falação e nois tudo assuntando e dizeno: sim sinhô, ô hômi qui fala bunito. Parma minha gente!
Tinha um báribudo c’uma máquina de tirar retrato, pindurada numas furquia de ferro, sem sair do lugar, e era só: tic tic, tic tic. Num sei cuma num gastou a cara daquele povo todo qui tava ali. Foi; foi isso mermo, viu.
Tinha outro que iscreve um bandicoisa pro jorná, prum tá de blog – nem sei quem esse cabra qui chamam de blog não. Eu conheci Bógi, um fio ou neto de iscravo, num sei, vindo lá dos lado dos Catorze do Inhambupe, qui era coveiro na Natuba.
Me disséro que esse escrivinhador mora lá prás banda adonde os pulítico faz de conta que trabaia.
Me disséro, inté, qui tem um qui nem morrer morre. É imortá. Tu já viu uma farta de respeito a Deus, dessa qualidade?!.
Eles toda hora diz qui o caboco é imortá. Onde já se viu um negóço desse?!
Disséro q’ele se mudou pro Rio de Janeiro e lá déro a ele um táli de fardão todo custurado e bordado de ouro – que quando ele veste aquela roupa, fica todo impiriquitado, pariceno um marechá de guerra, qui é capaz de nem si virá prum lado e pro outo; mais qui o cabra fala bunito fala, isso eu vi, seu minino.
Óia só. No dia qui o hômi da roupa custurada cum ouro tava falano lá no Mercado e Talho Payayá – o mercado ainda tava saudio e tinha as têias imrriba cubrino tudo – disse pra quem quizesse iscutá que ele, quando era minino de iscola lá no Junco, “queria ser Castro Alves”.
E vamicês todos, meus conterrâno, tem tinência de quem era o hômi que o minino quiria ser?
Num tem não, num é?!, apois intônse s’aprumi, viu.
Eu vi, lá na Biblioteca de Doutor Geraldo Prado (pra mim inda é Geraldo de Maria de Dolí, purquê quando eu era minino, no Paiaiá, ele andava c’um badogue, de furquia de velande e burracha de câmara de ar do caminhão de seu Quinha, pindurado no pescoço; um aió de crauá iscanchado no ombro e dento dele uma ruma de bala de tubatinga, feita embolando nas mão lá na beira do tanque de seu Zé Piqueno de Sinhá, pra atirar em passarinho, todo mundo chamava ele assim) qui esse Castro Alves era um poeta respeitado; qui lutou pra livrá os escravo; qui era cunhicido no Brasí todo e até no istrangêro; e qui, pela má sorte da vida, morreu minino, só tinha 24 ano de idade. Tá veno qui lástima; tanta gente ruin cuma peste qui vive até 100 ano e aquele fi de Jesus foi simbora tão cedo.
Vadinho de Nelito de Dolí tava lêno essa istóra lá pra nois uvir; inté disse uns veussos do hômi que já morreu, um que tinha uns navio pelo meio trazeno uns nêgo do estrangeiro pra ser escravo no Brasí.
Mas seu minino, quando seu Vadinho acabou de lê aquilo tudo, era gente chorano, era gente surrino, era gente sambano, era gente bateno palma, e eu, cá dum lado, no meu cantin, caladin assubiano, só fiz dizer: boa seu minino. Isso é qui é hômi de verdade, esse táli de Castro das Ave.
Bem, meu caro Tom do Junco, Tonho do Paiaiá só pôde escrever isso para lhe agradecer a prosa.
Reserva Imbassaí, 6 de abril de 2020
Vamos passar lá no Pessoa, minha gente!!!!!!
Pessoa?!!!
Quem?! Uma pessoa, uma gente, um homem, uma mulher, um menino, uma menina?!!!
Não, Quim.
Pessoa é Fernando Pessoa: um português que fez sucesso na Europa, no mundo e no Brasil, mesmo escrevendo poesias e livros, daqui de Lisboa. Escreveu um monte de coisas bonitas e admiradas por todos.
Ele viveu entre 1888 e 1935. Veja que tem muito tempo isso; mais de oitenta anos atrás. Nem seus avós tinham nascido ainda.
Era um homem inteligente, traduzia livros do inglês para o português e deste para o inglês. Era, realmente um homem sabido e respeitado no mundo afora.
Tem uma particularidade, ele também usava alguns nomes para publicar seus escritos, suas poesias – sabe como seu avô usa o Tonho do Paiaiá ?! – isso mesmo: ele usava outros nomes, o mais conhecido deles Álvaro de Campos.
A isso se dá o nome de heterônimos ou pseudônimos: as pessoas usam um nome diferente dos delas e são conhecidas assim, como alguns artistas de novela ou teatro fazem sempre.
Você sabia que o nome de Sílvio Santos não é Sílvio Santos? É outro, Senor Abravanel. Como muitos outros que você vê na televisão, por exemplo e, em alguns casos, no Youtube, daqueles rapazes ou moças que fazem “live” que você tanto gosta.
Sim, tudo bem; tudo bem!
E o que vocês tanto falam em ir “lá no Pessoa”?!
Vocês mesmos dizem que ele já morreu há muitos, muitos anos!
É apenas uma forma de dizer, Quim!
Na verdade, a gente está chamando pra ir à praça onde fica a estátua de Fernando Pessoa.
Estátua?! Que é isso?!!!
É como se fosse um retrato igual à própria pessoa. Pronto: como se fosse um boneco de cera, de barro, de ferro, de bronze, de plástico, igual ao corpo da própria pessoa – mais ou menos igual àqueles de super-homem, homem aranha, etc., que você tanto brinca.
Ah, tá! Agora entendi.
E como que eles fizeram este boneco de quem já morreu tem tanto tempo?! Onde acharam o corpo dele pra fazer a forma?!
Olha Quim, você já ouviu falar em artista plástico? É uma pessoa que estuda e faz desenhos, quadros, pinturas e cópia de coisas, animais ou gente mesmo. O artista, a partir de uma fotografia de alguém, elabora o molde, a forma e depois, na oficina, dele faz a cópia, que alguns chamam imagem, outros réplica e alguns outros estátua.
É uma forma de homenagear as pessoas importantes ou que fizeram o bem, ou que escreveram poemas, livros, etc.; de dizer que a pessoa foi ou é importante para o país, para o mundo, para a arte, para a literatura, para o futebol, para a história.
Você tá lembrado que lá em Salvador tem a Praça Castro Alves?! Lá onde os trios elétricos se reúnem para se despedirem do carnaval?!
Sim, sim. Uma vez passei por lá com meu pai e vi um homem em pé, parado e com o braço pra frente, não sei mostrando, apontando ou pedindo o quê! Só sei que tá lá que não se move do lugar.
Pois. Aquilo ali é uma estátua de Castro Alves que o governo mandou fazer pra homenagear o poeta baiano e colocou na praça com o nome dele. Não é legal isso?!
Sei lá! Isso é coisa de vocês adultos. Eu só “sou um pré-adolescente” não sei tudo isso que vocês sabem ainda não!
Então, vamos pegar o elétrico ou o comboio para irmos pra lá.
Ôxi! Elétrico?!!! Vocês vão é tomar um choque daqueles grandes e cair sentados.
Lá na escola a professora disse que não se deve pegar onde tem energia elétrica porque dá choque e pode até morrer.
Não, Quim! Elétrico aqui é como eles chamam o bonde. Um pequeno trem, movido a eletricidade; como se fosse um pedaço de metrô que anda pelo meio da rua, para transporte de pessoas.
Sim. E o que é comboio?
Comboio é o mesmo que trem; só que bem maior, com vários vagões, serve para transporte de pessoas e de cargas.
Deslocam-se ao largo do Chiado, onde se deparam com o Pessoa – em bronze – “em frente ao Café a Brasileira, um local histórico fundado em 1905, onde os poetas e escritores se reuniam nas mesas na calçada para debaterem sobre assuntos culturais.”
Inevitável o papo reto entre o Pessoa de bronze e o pessoinha em carne e osso, de nome Joaquim, mas carinhosamente tratado por todos de Quim – um brasileirinho, baiano, muito curioso e de mente aguçada.
O Quim, tomou de uma cadeira de um daqueles cafés, e sentara-se ao lado esquerdo do Pessoa.
Entendo desnecessário lhes dizer da felicidade de poder papear com um dos maiores poetas lusitanos.
Quim: de perna cruzada e ostentando óculos escuros, atento a tudo que se passava, se dirigira ao Pessoa, e, educadamente, fala à estátua – posso sentar aqui ao seu lado, poeta Pessoa, pra gente levar um papo reto?
Pessoa: diz-me cá ó miúdo, donde tu vens, qual o teu nome? Estás a sós?
Quim: ôôô seu Pessoa, sozinho não pode ser, não é?! Sou um miúdo, como o senhor disse, não posso viajar sozinho; estou com minha mãe, minha avó e minhas tias. Meu nome é Joaquim, mas me chamam Quim, sabe; venho da Cidade do Salvador, Estado da Bahia, a primeira Capital do Brasil, que por sinal foi fundada por um conterrâneo do senhor.
Pessoa: ora pois, miúdo Joaquim, então tu és das terras do poeta Castro Alves, de quem muito admirei as poesias, principalmente pela cruzada firme e corajosa em favor dos escravos!. Estou a ver que és muito sagaz e senhor de si quando falas. Diz a mim, chegastes hoje a Lisboa?
Quim: Olha só seu Pessoa, que legal hein! Lá em Salvador tem uma estátua desse poeta que o senhor falou. Só que ele está em pé com a mão estirada e colocaram num lugar bem alto, por isso não dá pra gente conversar com ele como estou conversando com o senhor; só o povo do trio elétrico, eu acho, nos último dia de carnaval, que ficam todos arrodeando ele, tocando e cantando músicas. Não seu poeta, nós chegamos ontem. Estávamos na casa de minha “Tia Doce”, em Munique, Alemanha, ali bem pertinho daqui. Creio que o senhor conheça, afinal é aqui na Europa.
Pessoa: mas, o que fazes a cá em terra de além mar, ó miúdo? Vieste somente a me ver? ou a passear e apreciar as coisas bonitas de Lisboa? Tu já leras alguma poesia minha?
Quim: somente a ver o senhor?!!, nãooooo!!! Vim passear, conhecer os lugares bonitos da cidade e, aproveitei pra levar um papo reto com o senhor. Lá na minha escola a professora disse que o senhor é um dos maiores poetas de Portugal e que fez muito sucesso também lá no Brasil. Como sou ainda muito novo, não leio poesias de adulto, o que é uma pena. Mas prometo ao senhor que quando crescer vou ler um montão delas.
Pessoa: “levar um papo reto”?! De que falas tu, ó miúdo? Não dou a conhecer este teu falar, aliás pouco usual cá entre nós portugueses; “papo reto”?! o que é isso, podes me explicar?!
Quim: mas poeta, então o senhor não sabe?!!!, nada demais falar assim. Sempre usamos estas palavras quando queremos levar uma conversa frente a frente com qualquer amigo ou colega. Isto é, conversar numa boa, falar do que quiser falar e bem entender, etcetera e tal.
Pessoa: ora pois, miúdo Joaquim, só agora estou a saber, por ti, de que conversar com alguém é “levar um papo reto”. No tempo que estive a fazer poesias e escrever livros não se falava nesse tal de “papo reto”, do que deduzo ser uma gíria usada por vocês jovens dos tempos atuais.
Quim: seu Pessoa, gostei muito de papear com o senhor. Vou dizer lá no Brasil que lhe conheci e que levamos aquele papo reto. Muito obrigado por me ouvir e me dizer das coisas de Portugal.
Pessoa: ó miúdo Joaquim, cá estou eu em alegria por ter conversado contigo e saber que tens interesse em, no futuro, ler poesias minhas. Eu é quem te agradeço por este momento tão singelo e especial.
Papo encerrado, entre o Pessoa, o português de bronze, e o pessoinha de carne e osso, o miúdo brasileiro, o Joaquim, nosso Quim.
Dá-se a ver que fora uma conversa bem centrada e cheia de curiosidades. Um a falar o português originário e outro falando o português adaptado e corrente em seu país.

Tonho do Paiaiá
Em distanciamento social e com saudade do meu Quim.
Reserva Imbassaí –– 4 de abril de 2020
Bom dia, meu cumpádi Zé de Oláia!
Me conte, pelo amor de Deus, como vamicê se achou nessa táli de quarentena que o Guverno mandou pra nóis tudo fazer?
Vamicê ficou mesmo os quarenta dia dendicasa só com a cumádi Zifirina, o papagaio e aqueles dois cachorros pulicial dos óio azul?
Péra lá, meu cumpádi Filiciano, então num vá me dizer que vamicê num viu as notícias na televisão nem iscutou os homi da rádia ensinando a gente que essa táli de quarentena só tem catorze dias?!
Eu cá fiquei meio cabreiro, cumpádi Zé, mas Bizunga, minha muié, apoquentou meu juízo o tempo todo: “ Filiciano, hômi de Deus, se os hômi tão dizeno que é catorze é purquê é catorze mesmo, duas semana intupidinha”.
Ôxi Bizunga, apois se é catorze tinha de ser catorzentena e não quarentena – pra mim quarentena é quarenta dia, uma quaresma inteira – e não duas semaninhas chocha de nada.
Sei não, viu! Esse povo do Guverno me inventa é coisa. Além dessa duas semanentena, é um lusco fusco dos diabos; é um táli de lava mão, passa álcool, ispirra no braço, tampa a cara com papel, com lenço, chega da rua deixa as precatas do lado de fora, tira a roupa no rol da casa – uma senvergonheza do cão – corre pro banheiro e tome-lhe banho, esfrega cum bucha vegetal, sabão de soda e o chuveiro aberto sem parar. Num sei quanto a Cacimbasa vai me cobrar na conta d’água este mês, acho qui o dinheiro da aposentadoria num vai dá pra pagá, de tanto banho toda hora.
Istodia, fui no açougue de Zé Buchão comprar um pedaço de chupa molho e quando cheguei em casa a Bizunga fincou o pé na porta e gritou de lá de dentro: “ou tira a roupa ou num entra; sua fia Carmosa me ligou e me disse pra não deixar você ficar fruviando dendicasa com a roupa que foi pra rua de jeito ninhum”.
O jeito foi me esgueirar num canto do rol, tirar a roupa e rezar pra num aparecer a muié da limpeza ou então a vizinha abrir a porta pra levar o lixo lá fora, Óia, cumpádi Zé, foi um Deus nos acuda, uma tentação dos diabos, uma senvergonhice do satanás.
E num é só isso, viu! Fazia mais ou menos uns vinte e cinco ano que Bizunga não me via nu. Quando entrei na casa, a danada deu uma gargalhada tão longa que dona Fixiquina, vizinha do lado de riba, telefonou pra saber se a muié tinha ficado com o juízo mole. E num era pra menos, né! Afinal vinte e cinco ano não é uma quarentenazinha qualquer não.
E eu, discabriado qui só minino mijão, pra ixplicar ao vizinho que foi um surto de alegria, mas sem deixar qui ninguém desconfiasse o motivo da alegria, claro!
Apois bem, cumpádi Zé, siguimo tudo direitinho, direitinho, sem fartá nem pôr, e tamo vivo pra contá a história.
Passado tudo isso, óia só o que aconteceu: um tal de Braceta ou Dedeta, sei lá o quê, no último dia das semanentenas – num chamo quarentena qui Deus não deixa – ligou pra Bizunga pra dar um parabéns, se dizeno ele ser o chefe dos hômis que fiscalizou as casas pra saber se os veios tavam se comportando bem.
Diabo sabe quem foi esse fio duma égua que deu o número de Bizunga a esse fi de Jesus. Eu cá desconfio de Dona Jardilina, a infermeira do Posto de Saúde, que um dia foi lá em casa dar um injeição na muié que me apareceu com umas coceira no corpo.
Meu cumpádi Zé vigie só, assunte direitinho, quando a Dona Jardilina chamou na porta, que eu abri pra ela entrar, êta susto do levunco, cumpadi. A fia de Deus tava vestida numa roupa daquelas que o povo usa pra tirar mel de abeia no meio do mato, toda intiriçada que só movia os braços e arrastava as pernas, uma da cada vez. 
Dei um pulo pra trás e gritei: chega Bizunga que aqui tem um povo igual aos que viaja naqueles disco voador; acho que dessa vez nóis vai direto pro céu sem passar no cimitéro! Valei-me São Supriano!!!
Mas cumpádi Zé, todo esse sacrifício valeu a pena; lhe digo com o coração aberto, com felicidade e saúde garantida.
Nem eu, nem Bizunga, nem meus fios, nem a moça da roupa de tirador de abeia, nem meus vizinhos, ninguém pegou esse táli de coronavírus.
Agora tamo nóis aqui tudo sadio, seno parabenizado pelo Guverno e seno exemplo para toda cidade de Nunca Mais.
Tão dizeno até que o Guverno vai levar a experiência de minha casa pras cidade grande e vai filmar tudo e botá na televisão.
Veio uma muié do Guverno aqui em casa, levou Bizunga prum salão de beleza, mandou isticar os cabelo, escavucar as unhas e até pintou uma por uma. A véia tá pariceno manequim de loja da capital.
Pra mim mandaram fazê um islaque de mesclinha, me levaram numa barbearia, cortaram o cabelo, barba, apararam meu bigode e ainda me deram um chapéu de baêta ramenzonni 3 xís.
Tô todo impiriquitado, pariceno um senador. Também pra aparecer na televisão tinha que ser assim, se não ia parecer que a gente tava duente, né mesmo?!
Vamicê num imagina, cumpádi Zé, como nóis tamo orgulhoso de poder ter ajudado o Brasil e nossos irmão brasileiro a não deixar que essa doença da terra dos hômi dos ôio esticado passasse pra todo mundo e fosse uma mizera dos diabos.
O Brasil tá enfrentando essa coisa rúin com braços fortes, com seriedade, obediência e nóis não foge a luta!
Tonho do Paiaiá
em Quarentena Familiar
Reserva Imbassaí, 22 de março de 2020
A chave do Engenho – saga e autocontrole de um sertanejo
A famosa e temida “Seca de 32”[século passado] fizera um grande estrago no sertão. Iniciada, em verdade, no ano de 26, experimentara um pequeno intervalo no ano de 29, dizem os escritos.
Esta fora bem diferentemente daquel’outras ocorridas nos períodos imperial (1877 – 1879) e republicano (1915) da vida política brasileira.
Na primeira, embora no período imperial, houvera maior sensibilidade dos governantes de antanho a ponto de incentivar o êxodo de nordestinos para as regiões amazônica e sul do Brasil. Há estimativas de que morreram em torno de meio milhão de pessoas, embora haja contestações estimando alcançar a casa de dois milhões de mortos.
Em todas elas, sob os olhos dos governos imperial e republicano, optou-se por conter grande leva de pessoas, em abrigos, vigiados por guardas, tolhidos do salutar direito de ir e vir. Uma lástima!
Esses abrigos foram classificados como “verdadeiros campos de concentração”. Teria o führer alemão se inspirado nos ‘abrigos’ nordestinos para utilizar campos de concentração na Segunda Grande Guerra? vade retro!
Famílias dizimadas, outras partidas ao meio, outras ficaram bastante diminutas, quase desaparecidas. Alguns desses episódios ligados à morte, outros à partida em busca de refrigério, outras por naturalidade da expectativa de vida presente à época.
O velho Graciliano, em Vidas Secas, nos dissera muito da saga vivida pelos sertanejos. Então desnecessário trazer a lume neste artigo, dado não ser este o seu propósito.
Volto ao propósito.
Uma família, duma certa povoação sertaneja, tivera de mudar-se para outra que, na visão do seu varão, poderia lhe trazer a redenção. Não se sabe lastreado em quê; intuição pura e simples.
Comparando mal, sem nenhum desmerecimento, o faro do homem trabalhador e destemido, antes submerso nas cinzas sobrantes da caatinga que o sol torrara, aflorara e determinara um novo rumo na sua vida e da sua família.
Havia decidido. Dali mais alguns dias deixaria aquela povoação, onde nascera e até ali vivera, em direção a outra qualquer que lhe garantisse prosseguir com o mandamento divino “crescei e multiplicai”. Assim o fizera.
Escolhera povoação, mais próspera que a natal, onde pra lá já havia se mudado uma leva de pessoas do seu relacionamento amigável e/ou familiar.
Montara moradia. Trabalhara incessantemente, recebendo adjutório advindo daqueles conterrâneos já estabelecidos na localidade, construíra sua morada, fizera seu roçado, sua malhada para o plantio do feijão e mandioca – seu sustento e de sua família.
Tempos difíceis vieram. Viajara a São Paulo em busca de trabalho. Trabalhara e amealhara capital suficiente para enviar todos os meses à sua família – via Vale Postal dos Correios (quanto fora útil e respeitada a Agência dos Correios daquela época em que não se ouvia falar em agência de Bancos nos sertões!) – e ainda trouxera a maior parte para sua mantença e dos seus, além de adquirir novas terras para trabalhar.
Quando fora visitar a malhada que deixara ao viajar pra São Paulo, encontrara lá outro ser vivente instalado com família e tudo, com casa de taipa e tudo mais.
Dissera a si mesmo: se esta criatura teve coragem de invadir a propriedade dos outros, botar sua família dentro, com ou sem razão, tem coragem também de até me matar se for reclamar sua saída. Deixa ele aí; ele tá precisado mais do que eu. Deus há de me dar outra!
E Deus lhe dera! Com o dinheiro conquistado pelo trabalho em São Paulo adquirira outras terras, possuindo-as até a sua morte.
A família crescia, filhos e filhas nasciam e eram criados com muito amor e responsabilidade. Todos ainda pequenos; viera mais um rebento, sob a graça de Deus.
Como nenhum dos filhos pudesse ajudar a própria mãe no pós-parto, era necessário que o sertanejo arranjasse uma pessoa para cuidar da parida até cumprir o resguardo.
Ele, trabalhador como o era, ficava o dia inteiro fora de casa, saindo ao raiar do sol e retornando quando este se punha.
Por oferta da família de trabalhadores em suas terras, trouxera para ajudar sua esposa uma meninota na faixa dos seus 16 a 17 anos – já madura para a época – embora não muito bem aquinhoada de trajes, por conta da situação financeira de seus pais, mostrava-se bem limpinha e prendada em afazeres do lar, além de uma beleza invejável, com sua tez morena, cabelos longos e lisos, digna de admiração de todos.
Tudo corria nos conformes de uma família normal. A parida cumprindo seu resguardo, o varão cumprindo sua lida diária na roça, os meninos sendo assistidos pela morena donzela a cuidar da casa e dos afazeres que lhe indicavam serem adotados no dia a dia.
Mas, nem tudo é calmaria. Meninas nessa idade, contam com o despertar de desejos, com a libido à flor da pele. Não fora diferente com aquela caboclinha: os desejos efervesciam, a libido lhe empurrava mais ainda à satisfação daqueles pecaminosos desejos.
Não deu outra.
Certa tarde, após o almoço, as crianças na escola e a parida no seu aposento – não podia de lá sair antes de completar o prazo do resguardo; eram absolutamente rígidos os resguardos de parto naqueles tempos – chegara em casa o varão, viera mais cedo para cuidar de algum assunto na urbi, talvez registrar o assentamento do nascimento do mais novo rebento.
A caboclinha lhe pusera o almoço e não se afastara da sala. Rodopiava pra lá, rodopiava pra cá, perguntava se o varão desejava água, um doce de umbu, um café, etc., etc., etc., tudo na normalidade, até ali. Tirara a mesa, lavara a louça e tudo mais. Arrumara a cristaleira e se recolhera aos seus aposentos nos fundos da casa, um cômodo bem arrumado, limpinho e cheiroso.
É preciso cuidar e respeitar a filha dos outros. Ela tem o mesmo direito de se alojar bem em minha casa, como tem a minha família, dizia o varão, respeitador, respeitado e consciente, muito embora cultivasse um carrancismo de raiz.
Viera o inesperado. O varão fora até a cozinha pra beber um gole d’água fria, tirada de caneca diretamente do pote.
A caboclinha, pressentindo o movimento e sabedora de quem se tratava, chamara o varão ao cômodo onde estava: Seu fulano, faz favor, venha cá.
Na boa fé e na consciência do respeito de um dono da casa, atendera ao chamado da moçoila.
Chegando lá, qual não fora o seu espanto: a caboclinha pelada, peladinha; nua, nuinha como nascera, insinuando um convite ao prazer carnal; afinal ele estava choco, no estaleiro, há muitos dias, por conta do resguardo da sua companheira, havia de dobrar-se àquela tentação dos diabos.
O varão olhara aquela cena admirável, porém, ao seu ver, desrespeitosa e altamente perigosa.
Não dirigira carões ou outras reprimendas mais ácidas àquela menina em estado fogoso, com a libido altamente aguçado e tangendo-a ao caminho do prazer carnal, ainda desconhecido e não experimentado.
Simplesmente lhe dissera: menina, criatura de Deus, tu veste logo essa tua roupa; isso aí é a chave do Engenho da Conceição!
No mesmo instante, e do alto do carrancismo que lhe caracterizava, tomara da sua montaria, desistira do afazer a que se propusera naquela tarde. Determinara que a caboclinha arrumasse sua trouxa, a pôs na garupa do seu ginete e partira em retirada rumo ao local onde moravam os pais da assanhadinha adolescente.
Lá chegando, entregara a espevitada aos seus pais, sem que tenha tecido uma palavra sequer sobre o acontecido naquele cômodo da sua casa; não cabia bem, seria uma grande decepção daquele casal humilde e trabalhador. Apenas dissera que ela vivia pelos cantos da casa, pedindo toda hora pra ir embora e decidira ir leva-la naquela tarde. Agradecera os préstimos e retornara ao seu lar.
Salvara-se aquele sertanejo de uma descompostura, da perda de credibilidade de que gozava na sociedade, da ruína de seu casamento, da perda de uma longa e sincera amizade com seus trabalhadores, e, mais ainda, de responder a um processo penal.
*Engenho da Conceição era, inicialmente, a denominação popular que se dava ao presídio da Capital, posteriormente, já em outro edificação, passou a ser apelidada de Pedra Preta.
Tonho do Paiaiá
Salvador(BA), 19 de maio de 2019
Era tempos que vinham a determinar o final da década de 30 e já na beirada da de 40 do século vizinho que passou.
A sua família havia experimentado várias e diversificadas dificuldades. Desde o grande receio de dar de cara com a passagem do cangaço – capitaneado por Virgulino, o Lampião – com necessária correria para esconderijo na caatinga, até a famigerada seca de 32 que dizimara por completo o rebanho, sem falar que safra mesmo nem para a subsistência apuravam.
Como se sabe, todo rapaz, na transição de adolescente para adulto, é dado a se aventurar em mais de uma investida amorosa ou de paquera – muto embora este termo último nem se cogitava, sequer nos compêndios gramaticais, tampouco nos dicionários.
Quero aqui lhe dizer, caro leitor, sobre a bravata de um jovem bonito e vistoso, hoje homem maduro – já nonagenário, beirando o centenário – bem criado e de uma família extremamente conhecida pela retidão de caráter e dedicada a lida na roça; mais ainda por ter sido formada a partir de duas famílias muito conhecidas nos arredores dos povoados do Paiaiá até o do Cabeleiro, considerada a linha limítrofe no sentido leste oeste.
O jovem, bastante trabalhador e já desfrutando de amealhar receita própria para seu possível sustento, fielmente obediente aos seus pais,
morava em casa destes numa fazenda próxima à Bandinha, hoje Paiaiá.
Dispunha de sua montaria e fazia questão de ostentá-la com seus arreios de primeira, estribos em latão brilhosos, sela de capa com enchimento de lã de safarnote, lóros, estrovos e rabicho bem untados no azeite de mamona, de dendê ou sebo de boi cuiudo.
Brida de metal – alguns achavam ser de prata, mas ele não confirmava. Não tinha a certeza, nunca foi dado a conversas que não tivesse pé nem cabeça, tampouco a confirmar mentiras, ainda que por uma boa causa, nunca – rédeas duplas, a maior fabricada com pelos de crina de cavalo e a menor encastoada com tiras de couro de carneiro curtido e de fina qualidade.
Sempre se trajava com boas calças de linho e camisas em tecido de anarruga ou cambraia, sempre em mangas longas, chapéu de baeta
marca Ramenzonni 3X (três xis), botas enceradas e vistosas com esporas de metal compostas com rosetas afiadas e de tamanho razoável.
Era indispensável o capa colonial três coqueiros, meticulosamente dobrado, enrolado e preso na garupa da sela. Explica-se: poderia haver necessidade de viajar noite alta ou mesmo madrugada;
poderia encontrar uma onde de frio ou mesmo uma possível chuva, sem contar que este equipamento (vestimenta) também podia ser utilizado para preparar uma improvisada cama para dormida, numa extrema necessidade.
O rapaz, não se achando pouco desejado, investira em aventura dupla: estava a cortejar moçoilas de famílias diferentes em lugares diferentes, óbvio.
Como todo “dom juan” caboclo, o rapaz se valia de peripécias para visitar alpendres diferentes sem que as cortejadas ou suas famílias viessem a saber dessa dupla aventura amorosa. Salteava momentos de visitas às suas enamoradas, ora dia por dia, ora semana por semana, mas sempre concatenando um domingo para cada amada.
Naquel’época não se visitava amadas todos os dias. Normalmente finais de semana; principalmente porque todos trabalhavam na roça em agricultura ou pecuária familiar – todos ajudavam seus pais na lida diária, seja lá em que tarefa fosse: os homens geralmente em trabalhos braçais, tangimente de bois na aragem de terras
, chamando juntas de bois ainda em treinamento e, quando já treinados, servindo de carreiros em carros de bois com juntas de seis, bem encangados e abrochados e com canzís bem tratados e brilhosos; as mulheres no cuidado com a casa, outros irmãos pequenos, pegando água na fonte ou no tanque, lavando roupas, pondo-as a secar e engomando-as ou como civilizadamente hoje se diz passando-as. [engomar era a denominação, dado que utilizava-se goma de tapioca (sub produto da mandioca) para deixar a roupa bem infestada, com vincos perfeitos, sem qualquer sinal de amarrotamento] e outros afazeres cabidos ao sexo feminino como reinante.
Pois bem, o amante duplo cortejava uma moça de uma família que não gozava da admiração de seus pais, em vista daquela família não lhes fazer gosto.
É como se dizia: não queriam o casamento do seu filho com a moçoila daquela família; não passara a amada pelo crivo da querência dos seus pais, embora este assunto fosse extremamente restrito ao casal e ao cortejador descendente – verdadeiro segredo familiar. No entanto, era àquela moçoila que ele mais admirava e desejava para formar uma nova família, mas não revelado aos seus pais.
A sua mãe descendera de uma família de pessoas bem-falantes. Isto é, falavam em ponta da língua, como diziam. Já o varão, de pouco estudo e, pra completar, tinha a chamada língua presa [anquiloglossia], com sérias dificuldades em pronunciar, com entonação correta, algumas palavras.
O seu pai, tinha um histórico de carrancismo pouco comum, de quem, depreende-se, o cortejador tenha herdado por consanguinidade, por óbvio.
Conta-se que, sendo admoestado por sua sogra por que não se dirigia à sua esposa chamando-a pelo nome de batismo [Joana, por exemplo] preferindo tratá-la somente de muié [mulher, esposa] – tudo por conta da limitação lingual – se limitara a ouvir, paciente e atentamente, à admoestação da sogra, sem nada lhe responder. O episódio o fizera continuar a tratar sua esposa nominalmente por muié e assim fora até o último dia de sua vida, sem pronunciar sequer uma vez o seu nome de batismo, onde quer que fosse, em sua casa ou fora dela.
Lembro que quando perguntávamos: tio, como vai tia Joana [nome fictício]?
Respondia, sem maiores explicações: a muié, lá em casa, vai bem graças a Deus.
Nas noitadas de visitas às suas amadas, o cortejador duplo, tinha o hábito de ao chegar em casa tirar os arreios do seu ginete na porteira do quintal da casa, dava um bom banho na montaria e a soltava no pasto que melhor atendesse as necessidades da sua companhia-transportadora.
Adotou esse ritual para não acordar seus pais, não os incomodar em plena madrugada.
Seus pais, sabendo de grande zelo que o cortejador tinha para com seus sonos, costumavam deixar uma das janelas encostada, isto é, precariamente fechada, sem a passagem de ferrolho ou tramela ou trava de madeira para que lhe fosse dado acesso ao quarto de dormir.
Um belo dia – sempre há um belo dia!!! – o cortejador saíra bem mais cedo que o normal e resolvera correr o risco de visitar as duas amadas no mesmo dia. Passaria na casa de uma pela parte da tarde e na da outra pela parte da noite. Assim o fizera.
Na volta da casa da garota enamorada que visitara à noite – esta era justamente a que seus pais não aprovavam – passara na rua da Bandinha[Paiaiá], encontrara alguns parentes e amigos e tocou a pilheriar com eles contando e ouvindo causos. Ora de almas penadas, vagando em corredores[veredas] lá pelas bandas do rumo da sua moradia; ora dos famosos, folclóricos e invisíveis zumbís, ora de pega de gado nas caatingas do Icó Miúdo, Tanque do Umbuzeiro, Varzinha, etc e tal.
Justamente neste dia, por algum descuido, sua mãe passara a tramela na janela de acesso ao seu quarto de dormir. Não fora caso pensado; fora realmente uma atitude despercebida, admitindo que o galanteador já estivesse em seu leito de dormir, como fazem todos pais de famílias ao se deiteram: verificam a segurança da casa.
O deslocamento da rua da Bandinha para sua casa ocorrera sem maiores sobressaltos, embora o pangaré da montaria tenha refugado umas duas ou três vezes em vista do movimento de vai e vem, tangidas pelo vento, de umas folhas de jurubeba que tem cores diferentes: na parte de cima sempre verde escuro, na parte oposta cor acinzentada.
O amante duplo, passara de mão do seu facão corneta 18 polegadas, atiçara as esporas no cavalo medroso e dum só golpe deitara ao chão os galhos da jurubebeira. Pronto, caminho aberto sem mais empecilhos seguida a viagem buscando seus aposentos.
Cumprido o ritual de desarrochar o animal, tirar os arreios, banhar o ginete, levá-lo ao pasto de boa comida, guardar bem guardado os arreios para que não fossem atingidos por ratos, pusera o seu capa colonial embaixo do braço e incontinenti, levara a mão à janela de sempre, por onde acessava seus aposentos de dormir.
Qual não foi o desapontamento do “dom juan” caboclo que o deixou sem pernas – como se diz cá no nosso sertão – a janela estava trancada. Não havia como adentrar a casa sem que acordasse seus pais ou irmãos.
Não tivera outro pensamento: isso é porque eu venho da casa da moça que eles não aprovam; só pode ser. Para ele alguém batera com a língua nos dentes e os velhos ficaram sabendo do seu destino naquele dia.
Nada que não pudesse ser resolvido. Arrodeara a casa e se alojara na parte dos fundos numa extensão coberta da cozinha de fogão de lenha. Estendera o seu capa colonial, deitara ali mesmo e dormira até o primeiro canto do galo, seu relógio indicativo de cuidar de tirar o leite das vacas apartadas para tanto.
Pegara os vasos, que ficavam justamente na extensão onde dormira, e se dirigira ao curral. Chamara as vacas uma a uma pelos seus nomes, tirara o leite e levara para entregar à sua mãe que já estava de pé. Nada lhe dissera e nem lhe fora perguntado.
Não se fizera de rogado. Tomara do seu facão, da cavadeira, da foice bem amolada e se dirigira à caatinga que circundava o quintal da casa – a pouco mais de 100 metros – antes mesmo de tomar o café da manhã, como costumeiro.
Escolhera alguns caules de árvores, do seu conhecimento boas para aquele intento, cortara algumas palhas de licurizeiro, fizera destas algumas cordas para as amarras do esqueleto que levantara, cobrira com as outras palhas
e fizera um rancho [moradia precária] onde passara a dormir daquele dia em diante e durante mais 6 anos seguidos.
É necessário que se diga: o relacionamento do “dom juan” caboclo com seus pais e demais familiares em nada mudara. Circulava livremente pela casa matriz, fazia refeições, etc e tal., mas deitar-se a dormir ou descansar somente no seu rancho levantado na caatinga.
A decepção daquela noite-madrugada lhe dera um rancho na caatinga.
Tonho do Paiaiá
Relatando um causo que ouvira, na madrugada do primeiro dia do ano de 2019, de não menos que a filha do “dom juan” caboclo.
Salvador, 5 de janeiro de 2019
Já se passaram 20 anos.
Minha passagem pela COTEPE — Comissão Técnica Permanente do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – COTEPE/ICMS — como representante do Estado da Bahia, talvez tenha sido um tanto quanto meteórica. Fiquei lá por volta de um ano, mais ou menos.
Mesmo nesse pequeno espaço de tempo, tive a graça e alegria de conviver com várias pessoas que representavam suas unidades federativas, com as quais aprendi bastante e me relacionei modestamente com amizade e companheirismo.
Ontem, para minha alegria, em casa do casal anfitrião Ely Dantas e José Hilton encontrei com a Lourdes — representante do Goiás — além de outros representantes o do Piauí, Neto e o do nosso vizinho Sergipe, Rogério Freitas, estes dois últimos novatos, para mim.
Presentes a esse encontro outras pessoas ligadas ao trabalho cotepiano, a exemplo de Sandra Urânia – Bahia, Lucymar — Mato Grosso e Maria Carneiro — Goiás.
Sabe-se bem que em encontro de pessoas do convívio de trabalho é inevitável falar dele. Parece uma praga. Mas, nesse encontro, falamos de amenidades e das lembranças da COTEPE e nada de assunto técnico-fiscal; nada mesmo.
Esses cotepianos estão na Bahia por conta de Reunião do CONFAZ (Conselho Nacional de Política Fazendária) ocorrida no Palácio Rio Branco, nesta semana.
Apressei-me em procurar notícias dos representantes do meu tempo. Ainda estão por lá? Quem? etc e tal.
Pois bem, após obter as informações desejadas, me veio em mente escrever esta crônica para registrar o encontro de ontem, que, com certeza, prosseguirá no dia de hoje, quando havemos de celebrar aniversário do anfitrião José Hilton, em sua casa de praia aqui na Reserva Imbassai, onde escrevo.
Lembrar dos meus tempos de COTEPE exigiu forçosa viagem mental para tecer minhas impressões sobre cada um daqueles pares. Obviamente que não lembrei de todos, pelo que apresento minhas desculpas.
Vou me permitir não seguir qualquer ordem, quer seja alfabética quer seja de preferência. Seguirei o que minha mente for me sinalizando.
Comecemos pelo Plenário daquela Comissão e sigamos pelos representantes das unidades federativas.
O Dr Manuel – Secretário Executivo – reverenciado pela sua liderança, parcimônia e trato lhano para conosco, além da sua verve conciliatória nos mais acalorados debates entre nós, representantes de antanho.
Permitam-me iniciar sobre meus pares, com a Lourdes, representante do Goiás, até mesmo pelo inusitado do encontro aqui na minha Bahia. Lourdes não deixava passar nada. Digamos assim, um verdadeiro beque central, valendo-me do jargão futebolístico, na defesa dos interesses do seu estado, mas sempre afável conosco e, por vezes, oferecendo adjutório nas nossas discussões para melhor entendimento das matérias sob análise, referenciando a legislação e o histórico dos atos COTEPE, convênios, etc., que diziam sobre elas.
Como não lembrar do “comendador” João Alfredo — de saudosa memória — representante do Ceará, fina e elegantemente trajado, invariavelmente, além da sua forma fidalga de tratar com cada um de nós; um verdadeiro gentleman, na essência da palavra.
Difícil esquecer a pujança cartorial do Odair, representante do país-estado São Paulo, detentor de biblioteca própria e ambulante alusiva aos Convênios, Acordos, etc., além da legislação tributária do seu representado – um verdadeiro calhamaço de papéis, dado que naquel’época a internet ainda estava engatinhando em nosso país.
Era comum vermos o(s) representante(s) do Rio de Janeiro, Edmundo e Adalberto sempre em dupla – se fossem da Bahia, podíamos até apelidá-los “Cosme & Damião”, os santos meninos que celebramos em setembro com oferecimento do tradicional caruru servido a 7 crianças – passavam a todos um exemplo de cumplicidade profissional naquilo a que estavam dispostos a discutir em prol do seu estado.
Como aprendi com o tom amigável do professor Eliud, representante do Maranhão! Estava sempre solícito e disposto a nos orientar.
Não, não podia esquecer da alegria transbordante do João Carlos, representante de Santa Catarina, piadista e fiel torcedor do governador daquele estado, pelo fato de este pertencer aos quadros do fisco catarinense.
Lembrei da sisudez e da elegância em trajar-se do Omena, representante das Alagoas, de pouca conversa, embora cortez conosco e sempre disposto a coordenar uma discussão de matéria a ser levada a Plenário.
E o Barros, representante do Mato Grosso do Sul, com seu vozeirão característico e trato cativante, que nos recebera finamente para o CONFAZ de setembro 1998, na cidade de Bonito, verdadeiro paraíso natural, .
Ah, não deixaria de fora o meu dileto amigo e companheiro Nilo Otaviano, representante do Pernambuco, hoje ferrenho homem de frevo, com o seu Projeto músico-cultural denominado Arruando; uma bela e portentosa Orquestra, que alegra o Recife com seus dobrados, frevos e passistas admiráveis.
Do meu vizinho Sergipe, a lembrança do Raimundo, sempre formalista e circunspecto, defensor incólume das receitas sergipanas; muito difícil ceder em matérias que vislumbrasse o apontamento de mínima, minimíssima, perda na arrecadação.
Do Rio Grande do Norte, lembro da Lina Vieira. Moça elegante, competente e sincera na defesa dos propósitos tributários do seu estado.
Do outro Rio Grande, o do Sul, a figura pouco amistosa do Gazziotin, aliás o seu jeitão próprio do sulista brasileiro, sempre se apresentando a coordenar matérias do interesse do seu estado com o fito de, talvez, de emplacar o desejado sem reparos.
Do Pará do Círio de Nazaré, me veio a lembrança da Nilda, representante daquele estado.
Lembro bem do Zé Humberto, representante do Espírito Santo, com seu bigode característico, sempre apressado nas reuniões.
Da Paraíba, grata lembrança do meu amigo Nailton. Muito educado e amigueiro; sempre nos identificamos muito bem.
Das Minas Gerais, lembrança vaga do Deusimar, pouco afeito a conversar, embora cordial e receptivo às nossas considerações.
Não tenho como esquecer do trato cortês e conciliador do Francisco, representante do Paraná, a quem recorri por diversas vezes em socorro às pretensões da Bahia, notadamente o item isenções fiscais.
Do Mato Grosso, tenho a lembrança do José Carlos, alto, esguio e de cabelos e barba brancos, finamente tratados.
Do Amazonas, a lembrança do Nivaldo, um rapaz moreno, característica de origem indígena — por óbvio.
Como dissera no início, peço perdão àqueles que não lembrei. Afinal já se passaram vinte anos e sem qualquer contato com aquela Comissão Permanente.
Reserva Imbassaí — Bahia, raiar do dia 16 de dezembro de 2018.
(Antônio Mário Bastos) Tonho do Paiaiá — reminiscências do trabalho em Brasília, representando os interesses fiscais tributários da Bahia.
Zé Ramos MAIS DE MEIO SÉCULO DE POLÍTICA. Isto é servir!
(Primeiro Capítulo)
No último dia 20 de deste mês de março, celebrar-se-ia o nonagésimo sétimo aniversário de nascimento do nosso pranteado e inesquecível Zé Ramos – José Ramos de Souza. Fiz uma pequena incursão no Facebook fazendo menção a essa data comemorativa e prometi que faria publicar uma forma de seriado da trajetória de vida pública desse homem; não se trata de biografia – seria muita pretensão de minha parte, pois além de requerer bastante pesquisa e outros senões que não me parece conveniente citá-los – o objetivo é levar ao conhecimento público mais alargado, dos mais jovens principalmente, quem e o que fora o homem público José Ramos de Souza.
Valho-me, na oportunidade, de um relato que fizemos para homenageá-lo no seu septuagésimo sétimo aniversário, há exatos vinte anos, parte deste relato transcrito e, por vezes, adaptado à necessidade de hoje.
Fiz questão de publicar somente hoje visto Zé Ramos ter nascido exatamente num dia 20 de março de 1921
, um Domingo de Ramos – celebrado pela Igreja Católica – e que, por certo, determinara a composição do seu nome, dado que não era nome familiar. Além do que, lembro-me bem, era ele devotadíssimo ao Domingo de Ramos e não faltava à missa nesse dia, por nada na sua vida.
Nominei este seriado de Zé Ramos MAIS DE MEIO SÉCULO DE POLÍTICA. Isto é servir!
Aqui vai ipsis litteris o que nós, seus amigos e liderados, fizemos publicar naquel’época.
MEIO SÉCULO DE POLÍTICA. Isto é servir!
No dia 20 de março de 1921, ainda em Soure- outrora Natuba-, hoje Nova Soure, nascia um menino predestinado, um líder, um servidor, um amigo. Seu nome: José Ramos de Souza. Para uns simplesmente Zé Ramos; para outros Seu Zé; para outros “Zé Bonitinho”. Hoje, quando se comemora seu 77º aniversário, os seus amigos fazem publicar um breve relato de sua vida política para presenteá-lo e, mais que tudo, para reconhecerem sua dedicação em servir.
Parabéns Zé Ramos!!!! Saúde! Que o Bom Deus continue lhe iluminando e lhe dando forças para servir!
É tudo que podemos lhe oferecer neste momento.
Seus amigos, seus admiradores, seus liderados
Nova Soure, 20 de março de 1998 
Nascido de pais pobres, João Professor e D. Santinha, nas terras da Taboas na confluência da Estiva como o Barro Branco, exatamente na Santa Rosa, em Soure – outrora Natuba – hoje Nova Soure, no início da década de 20. Foi menino como qualquer outro, brincou, estudou e cresceu. Sua escola foi, basicamente, sua própria casa — contava com um pai professor. Experimentou os trabalhos da roça, desde a limpeza de pastos e brejos, incursando pelo trabalho de aragem de terras, “chamar bois”, promoveu-se a “carreiro” e seguiu adiante na sua caminhada. Foi representante de laboratório, auxiliar de construtor (construção civil), gerenciou serviços na “fazenda do Estado” (campo de sisal), trabalhou nos serviços da contabilidade municipal, ingressou no Judiciário como serventuário do Cartório dos Feitos Cíveis, onde se aposentou na década em que estamos.
Ainda imberbe já participava de um grupo político, n’aquela época liderado pela figura ímpar do Monsenhor Antonio da Costa Gaitto — Padre Gaitto,
um lusitano dos Açores que, pelo desígnio da vida veio a falecer em pleno palanque político no limiar dos anos 50 — e tantos outros como “Seo Juquinha” — o Prefeito desbravador, empreendedor, corajoso, fiel, amigo, José Ferreira da Silva, conhecido por todos como Juquinha de Dona Moça ou, simplesmente, Seo Juquinha
, representante do clã dos “Ferreira”, família de invejável projeção em Nova Soure; Dr. Manelito — inatacável homem público, dentista de profissão e político por opção, também representante dos “Ferreira”, Dr. Emmanoel Ferreira da Silva, a quem Zé Ramos teve a felicidade de suceder por duas vezes (1958 e 1966); José Moreira de Carvalho — Zé Pequeno de Sinhá, líder e representante do povoado de São José do Paiaiá; Ramiro Vieira (junquense de origem), ex-prefeito no quadriênio 1950-1954;
Gabriel Gonçalves de Souza — grande comerciante e símbolo da fidelidade, seriedade e honradez em um homem; Antonio Anphilófio dos Reis — Tonico Moreira, figura de destaque na política local e, indubitavelmente, seu leal amigo — Zé Góis, funcionário público exemplar, comerciante e companheiro de todas as horas, e tantos outros que seria difícil nominá-los, pela extensão que esta escrita exigiria.
Liderado e verdadeiro amigo do maior político vivo da República, o Senador Antonio Carlos Magalhães[1],
que, nos momentos de descontração, carinhosamente lhe trata de “Zé Bonitinho”, amizade que vem de mais de quatro décadas, sempre fiel aos princípios políticos de ambos. Foi amigo do Governador e Senador Luis Viana Filho que lhe devotava admiração e respeito. Atualmente tem como represente do seu grupo, na esfera estadual o imbatível Deputado Otto Alencar (PL)[2] e na área federal o Deputado Jairo Azi (PFL)[3].
Assim começa sua história de homem público.
A prova de fidelidade e humildade.
Sua primeira missão viera em 1958. Tinha a responsabilidade de suceder a Dr. Manelito seu amigo e líder político. Atendendo a apelos de alguns dos vários amigos fora indicado para concorrer ao cargo de Prefeito nas eleições daquele ano.
Não estava pacificado o seu nome como candidato. O poder econômico da época falava mais alto. Tanto que, coerente com a sua história de fidelidade ao grupo político e aos amigos, da humildade permanente, decidiu não participar da convenção partidária da indicação do candidato. Viajara, passando procuração a um amigo mais próximo, Antonio Mendes Novo (Antonio Mendes de Oliveira), para declarar a aceitação da escolha acaso recaísse sobre ele — a legislação partidário-eleitoral da época assim permitia voto dessa natureza. Tomou tal decisão para não chocar seus possíveis concorrentes; era a prova da sua humildade e de lealdade ao grupo e aos amigos.
Via com extrema preocupação o lado social da sua terra. Covinvera com estudantes — filhos de famílias ricas, normalmente — nas idas e vindas à capital da Bahia.
Se deparava com a dificuldades dos muitos jovens que buscavam nele uma ajuda ou um empréstimo com vistas a mudar-se para São Paulo-SP em busca do crescimento e até mesmo da sobrevivência — seus pais já não podiam sustentá-los, já tinham alcançado a maioridade, era necessário buscar seu próprio sustento.
Foi nessa experiência de conviver com todos, agora já os representando, que lhe veio a luminar idéia de fundar um Ginásio em Nova Soure.
Foi uma tarefa dificílima. Viu deflagrada sua idéia em 1961.
Estava fundado o Ginásio Professora Maria Ferreira da Silva, uma extensão da Campanha Nacional de Escolas Gratuitas – a antiga CNEG,
hoje a conhecidíssima CNEC, Campanha Nacional de Escolas da Comunidade — afastaram o nome gratuidade mas permaneceu a facilidade de o escolar pobre frequentar a escola.
Contara como principais aliados nesta luta muitos amigos, pessoas da comunidade, tais como – aqui para não alongar a listagem, o Tabelião de Notas da então, Antonio Guilherme da Silva – Totonho de Olímpio, Seo Gabriel e muito outros — ; a inesquecível professora Maria de Lourdes Ferreira da Silva (Dona Morena); o Dr. Cardozo Reis — à época advogado recém-formado, hoje Juiz de Direito aposentado, pai de uma Magistrada em atividade — ; Dr. Carmo Biscarde Filho, dentista; Dr. Augusto Castro e Silva, único médico da cidade, Padre Otávio; e tantos outros.
Somente no ano seguinte é que começou a funcionar. Tinha que tomar uma decisão e o fizera, sem pestanejar.
Desalojara a Prefeitura transferindo-a para uma garagem que alugara; ali instalara provisoriamente o Ginásio.
Posteriormente transformou um prédio que estava projetado para ser a “cadeia pública” no atual prédio onde funciona o Colégio “Maria Ferreira” como é carinhosamente chamado pela população. Não se contentara com esta primeira etapa e criara o Curso Pedagógico, vindo este a Colação de Grau à sua primeira turma de Professores Primários, em 1970. Eis um exemplo da visão social de um homem, de um “educador” na sua essência.
Não poderia ser outro o seu sucessor senão o seu líder e amigo. Assim o fizera e entregara os destinos de Nova Soure, já pela segunda vez, a Dr. Manelito. 
Nesse pleito, viera a primeira experiência de defecções no grupo político.
O filho de seu grande amigo e incentivador Zé Pequeno, liderança do Paiaiá — José Prado de Carvalho, Zelitão como era conhecido — pretendia disputar o cargo. Foi uma tarefa difícil; não havia meios de promover uma conciliação no grupo; naquele tempo não existia o cargo de Vice-Prefeito para contemporizar uma chapa de união. Era preciso enfrentar a realidade e optar pelo seu amigo e líder, assim o fizera. Foi uma eleição duríssima, afinal tinha havido quebra de unidade no grupo político deixado por Padre Gaitto, continuado por Seu Juquinha e Dr. Manelito e por ele próprio, Zé Ramos.
Aguardem o próximo capítulo: SEGUNDO MANDATO
Estamos em pleno período de celebração, congraçamento, reencontro, lembranças (físicas ou não), saudações e tudo mais – estamos no Natal!!!
Tenho recebido algumas resmas de mensagens, umas de cunho relígio-sagrado, outras desportivo, outros do campo literário, outras de apelo pouco ortodoxo e outras ainda de temas festivo e de alegria, momentâneos ou não.
Aprendi, na convivência em redes sociais, sobre como lidar com mensagens, leio-as todas, guardo-as, respondo e/ou apreendo as muitas que não se chocam com o meu pensar, sobre qualquer delas.
Em sendo período de férias escolares, tenho passado mais tempo com meu netinho Joaquim (ainda com cinco aninhos) dentro de casa.
Conversamos muito – sempre ao nível dele, óbvio. Por vezes sobre seus coleguinhas, sua nova escola, os amiguinhos que não irão se encontrar na mesma escola; seus brinquedos, seus desejos de natal, e tudo mais. Ele é sempre o comandante da conversa.
Reclamando da Preguiça
Certo dia, eu fizera pedido ao Joaquim para que pegasse para mim um livro que estava sobre a mesa da sala de estar. Ele, simplesmente, não dera atenção ao meu pedido e se ausentara da minha alcova, mesmo que antes declarasse sua insatisfação, seu reclamo: “vovô, você não faz nada!!!!”, sisudo, indignado.
Chegando Zenaide ao quarto onde eu estava, lhe pedi fosse buscar o livro e comentei do pedido não atendido por Joaquim.
Sua avó, de logo, chamara Joaquim ao recinto e ponderara com ele. “Joaquim, você não atendeu ao pedido do seu avô? que coisa feia!”
Joaquim, não se dera por vencido: “mas vovó, vovô também não quer fazer nada…!!!”
Fui me explicar ao Joaquim: MôFio, vovô já tá velho, cansado, por isso que lhe pediu pra você pegar o livro.
Joaquim, de pronto, dera a resposta, com certa dose de reclamação: “vovô, bisa (aí se referindo a Dona Marocas, sua bisavó materna, que nos deixara em viagem final, no mês de março deste ano, faltando apenas 5 dias para ultrapassar a barreira dos 100) era mais velha que você e fazia tudo”.
O “fazia tudo” de Joaquim, na resposta, é que sua bisavó materna nunca lhe pedira para fazer tarefas para ela.
Risos à farta! Eu tendo que admitir a realidade mostrada por Joaquim, sem dar o braço a torcer e Zenaide a lhe explicar que se deve ajudar as pessoas quando estas lhe pedirem auxílio.
Consolo a quem precisava
Outro dia, Joaquim me pedira que abrisse um jogo no meu notebook para que ele jogasse. O tal jogo é em inglês, não só as orientações como forma de acessar e jogar. Pronto: lá vou eu ao computador tentei, tentei, tentei e nada de conseguir, afinal sou um montão de zeros à esquerda em língua estrangeira. Mesmo com as orientações do Joaquim não conseguira acessar o jogo para que ele brincasse. Deixamos para outro momento; quando sua mãe chegasse. Ele, pacientemente concordara.
Outra ocasião, fui chamado pelo meu netinho (sempre o trato, carinhosamente, MôFio) para que fosse seu parceiro de jogo no seu xbox que ganhara de aniversário.
“Olha vovô vou colocar no nível mais fácil pra você aprender.
É facinho, facinho, veja só (manipulando os dois joysticks como se eu estivesse jogando) e, pula um boneco de lá; pula um boneco d’acolá; supera uma barreira aqui outra alí…….
Mesmo com toda paciência ensinativa do MôFio, seu velho avô não passava do primeiro roud, “morria” logo; não prosseguia no jogo, o que o deixava desolado e reclamão: “vovô você não presta atenção… é assim ói….(tomando de minhas mãos o joystick, demonstrava como jogar).
MôFio, vovô já não tem mais cabeça pra isso não. Não dá pra você jogar sozinho não?!
Cansado de ensinar ao avô, Joaquim apelara para a vovó – avós são pra essas coisas mesmo; quem for que o diga – “Você vai ver vovô, como vovó sabe jogar e vai ganhar junto comigo”.
Não dera outra. Vovó teve de largar seus afazeres culinários para jogar com o netinho. O jogo prosseguira, entre risos e reclamos, tudo corria bem e as gargalhadas ecoando casa a dentro, seguidas dos anúncios em voz alta: “ganhei”, “vovó, você perdeu kkkkkk”.
Terminada a sessão xbox me dirigi ao Joaquim para lhe pedir desculpas e explicar que não tinha habilidade em jogar aquele entretenimento preferido por ele.
Olhe MôFio, vovô já tá velho, não tem mais paciência pra aprender a jogar esses jogos difíceis; mesmo por que é tudo em inglês e eu não sei inglês. Vovó sabe porque tem mais paciência que eu e facilidade para aprender essas coisas.
Joaquim, em visível tom professoral e de seriedade assevera:
“vovô, a vida é assim mesmo, uns aprendem outros não aprendem. Não se preocupe não!”.
Desnecessário seria dizer do meu espanto e de Zenaide, mas vou consignar: os risos foram em série, a ponto de correrem lágrimas nos olhos dos avós; a alegria e o orgulho maiores ainda em dialogar com aquela criança de pouco mais de cinco anos, já demonstrando certa maturidade no assunto, perante os velhos.
Mas, nesta semana esperativa do Natal, se sucederam algumas outras peripécias do MôFio.
A cumplicidade entre ele e Camila (sua companheira de seguidas horas no lar) é tamanha que conversam entre si como se dois adultos fossem, embora somente aquela já adulta. Eles interagem perfeitamente em conversas, as mais variadas possíveis.
Ela, cuidadosa como sempre, a explicar-lhe os modos de sentar-se à mesa, fazer as refeições, cuidar da higiene, fazer as “tarefas” vindas da escola e ele a lhe interromper: ora para dizer do sabor dos alimentos, das suas preferências, dos seus coleguinhas, da mudança de escola e outras coisas mais.
Revelando-se YouTuber e charadista
Primeiro dissera a Camila: “você sabia que tem um vídeo no YouTube comigo? Eu era ainda pequenininho. O nome é “Joaquim e mais uma das suas peripécias”.
E, chamando Camila ao meu aposento de dormir, pede: “vovô, veja ai no YouTube um vídeo meu” e me dissera o nome do título.
Encontrada a relíquia (https://youtu.be/mwwOpI3iN2k ), pusemos-nos a assistí-la, aos risos e a comtemplar a alegria daquela criancinha, hoje beirando seis anos mas se autodeclarando pré-adolescente.
Satisfeito com o que noticiara e apreciara, Joaquim e Camila voltaram à sala de estar para brincadeiras e conversas, como sempre o fazem.
Viera a sessão de perguntas, em tom de adivinhação/charada. Nesses momentos os dois se igualam em idade mental em demoradas e longas gargalhadas.
Camila investe: “Joaquim o que é que seu avô tem, sua avó tem, seu pai tem, sua mãe tem e eu não tenho?”
Joaquim, não se fizera de rogado. Sem pestanejar respondera com absoluta convicção ( a dele): “gripe”.
Camila não se conteve de risos e se dirigira ao meu aposento para contar a nova anedota (risos de todos).
É bem de ver que a resposta do Joaquim não fora de todo esquisita. Afinal, ele convive muito mais tempo com Camila de que com os demais citados na pergunta, e, decerto, tem registrado na mente de que sua companheira diária não tem apresentado situações de acometimento de gripes ou resfriados.
Mas, como Camila dissera que a resposta não estava correta, Joaquim quis que fosse revelado o “gabarito da prova”, no que prontamente Camila esclarecera: “carro”.
O riso de Joaquim dobrara e se alongara muito mais que o meu!
A resposta é verdadeira. É real – segundo Camila – mas, considerando a brincadeira no plano lúdico, Joaquim não haveria de supor tratar-se de bem material de tamanha envergadura, suponho.
O afago – seria o espelho meu….?!
Intromissão do velho avô, nas brincadeiras encetadas por Joaquim e Camila, levou-nos a resenhar sobre a nossa nova cadelinha de apenas um ano, da raça Spitz Alemã – por Joaquim nominada Luna ao primeiro dia da chegada dela ao nosso convívio- quando lancei a pergunta.
Joaquim você viu como Luna ficou bonita depois que cortou os cabelos – Luna havia visitado o pet salão no dia anterior – eu tirei fotografia.
E, ato contínuo, peguei do aparelho celular com a intenção de lhe mostrar as fotos.
Joaquim, olhando repentinamente pra mim, diz: “…. você?! Ficou bonito sim; tá bonito vovô! Seu cabelo ficou bonito”.
Não MôFio eu tô dizendo é Luna – por que minha pergunta fora justamente em relação a ela Luna – e ele, não se dando por vencido: “vovô você ficou bonito”.
O avô babão, babou mais ainda. Há quantas décadas não escuta uma confissão dessa ordem – bonito?! Quem, de sã consciência haveria de cometer tamanha bravata.
E olhando para o Joaquim, com olhos inundados de lágrimas incontidas, lhe diz: ô MôFio! E vovô tá bonito mesmo?!
E Joaquim, afirmativo e consciente (me pareceu, óbvio) “tá, tá bonito mesmo seu cabelo vovô”
Persiste a dúvida: quem está bonito? O avô ou o corte do seu cabelo, que ocorrera há pouco mais de três dias?! Prefiro acreditar que os dois. Afinal, manifestação vinda da alma de um anjo inocente e, talvez, de um tiéte consciente.
Mãe, hoje eu tô bonito. Joaquim foi quem disse!!!!! Gritei, silenciosamente, a todos pulmões. Era minha intenção que D Mariete soubesse da manifestação carinhosa do seu bisneto Joaquim.
Ao findar este artigo, em plena véspera comemorativa do Natal em Cristo,
quero dizer do quanto é gratificante conviver com criaturinhas dessa idade. Idade das perguntas, das descobertas, das afirmações, do lúdico, dos desejos, das conquistas.
Mas, é necessário que estejamos sempre alertas para as respostas e/ou condutas perante os atos e perguntamentos dessas criaturinhas.
Somos responsáveis pelas respostas, pelas ações e pelos ensinamentos a elas. Afinal, a educação nasce em casa – no lar – a escola aperfeiçoa utilizando as metodologias aplicáveis a cada fase da vida delas, as criaturinhas.
Política, cultura, bastidores.
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